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O Ouroboros: o fim que retorna ao princípio

13 min de leitura

Uma serpente devora a própria cauda. Dentro desse círculo, origem e término deixam de ocupar lugares distantes. O que chega ao fim retorna carregando tudo o que o percurso produziu.

A serpente curva o corpo até alcançar a própria cauda. A boca encontra a extremidade, e a figura se fecha sobre si mesma. É difícil saber se o animal está se alimentando, desaparecendo ou dando origem a uma nova forma de existência.

Essa ambiguidade sustenta a força do Ouroboros.

A imagem reúne movimentos que costumamos imaginar separadamente: nascer e morrer, criar e destruir, crescer e decompor. A serpente consome o próprio corpo e, ainda assim, conserva a forma do círculo. Em seu gesto, o começo depende do fim. A extremidade torna-se alimento.

O Ouroboros atravessou diferentes culturas e épocas. Esteve presente no imaginário religioso do Egito, nos textos da alquimia greco-egípcia, nos manuscritos medievais, na filosofia hermética e, mais tarde, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Cada tradição encontrou na serpente circular uma linguagem para suas próprias questões. O símbolo permaneceu vivo porque nunca pertenceu inteiramente a uma única interpretação. Ele fala do tempo, da matéria, da psique e da experiência humana de perceber que certos fins continuam trabalhando dentro de nós.

A serpente que envolve o mundo

Entre as representações antigas associadas ao Ouroboros, uma das mais conhecidas foi encontrada em um dos santuários funerários da tumba do faraó Tutancâmon, no século XIV a.C.

Duas serpentes envolvem uma figura divina ligada à união entre os princípios de Rá e Osíris. A imagem pertence ao universo religioso egípcio da viagem noturna do Sol.

Para os antigos egípcios, o desaparecimento do Sol no horizonte marcava sua entrada no mundo subterrâneo. Durante a noite, o astro atravessava regiões de perigo, decomposição e silêncio. Ao amanhecer, surgia renovado.

Rá-Osíris envolvido por duas serpentes Ouroboros no santuário funerário de Tutancâmon.

O nascer do Sol representava uma vitória constantemente refeita.

A noite possuía uma função regeneradora. O deus solar envelhecia ao atravessar o céu e recuperava sua força ao entrar em contato com Osíris, senhor do mundo dos mortos. A morte aparecia como passagem por uma realidade primordial, capaz de restaurar aquilo que o tempo havia consumido.

O egiptólogo Jan Assmann descreveu duas formas de tempo presentes no pensamento egípcio. A primeira, chamada neheh, correspondia ao tempo cíclico, marcado pelo devir, pelo movimento e pela renovação. A segunda, chamada djet, expressava a permanência, a duração e a estabilidade.

O percurso diário do Sol pertencia ao domínio de neheh. A presença duradoura de Osíris relacionava-se a djet. Uma dimensão garantia o movimento; a outra preservava a continuidade.

O Ouroboros podia reunir essas duas experiências.

A serpente gira, consome e renova. Seu círculo permanece.

A imagem egípcia não afirmava que o mundo permanecia sempre igual. A renovação pressupunha uma passagem pela escuridão. O Sol que retornava pela manhã trazia consigo a experiência da noite.

O devorador da cauda

A palavra Ouroboros vem do grego ourá, cauda, e borós, devorador. Seu significado literal seria “aquele que devora a cauda”.

O nome descreve uma ação. A profundidade do símbolo surge das perguntas provocadas por essa ação.

A cabeça costuma representar direção, vontade e consciência. A cauda aparece como término, consequência ou vestígio. Quando a boca encontra a extremidade do corpo, essas posições deixam de formar uma linha. O último ponto alimenta o primeiro.

A serpente encontra dentro de si a matéria de que necessita. Ela é criatura, alimento e recipiente.

Esse movimento produz uma imagem de autonomia absoluta. Também revela um perigo. A criatura que se alimenta de si mesma pode conservar sua existência ou consumi-la por inteiro.

O círculo oferece proteção, unidade e continuidade. Também pode tornar-se prisão.

Certos processos interiores seguem essa mesma lógica. Uma pessoa pode viver durante anos alimentando-se das próprias feridas, das mesmas lembranças, das mesmas culpas e dos mesmos ressentimentos. A energia continua circulando, embora permaneça presa em um campo fechado.

Em outras situações, aquilo que doeu passa por uma elaboração. A experiência encontra uma linguagem, ocupa um lugar na memória e se transforma em conhecimento sobre si.

O material permanece semelhante. Sua função se altera.

O Ouroboros contém essas duas possibilidades: a repetição que aprisiona e o retorno que transforma.

Hen to pan: o um é o todo

Uma das representações mais conhecidas do Ouroboros aparece em um manuscrito alquímico atribuído a Cleópatra, a Alquimista. O desenho foi preservado no Codex Marcianus Graecus 299, compilado durante a Idade Média a partir de materiais bem mais antigos.

No interior do círculo formado pela serpente encontra-se a expressão:

ἓν τὸ πᾶν — hen to pan
O um é o todo.

O corpo da serpente apresenta regiões claras e escuras. A divisão permanece visível. Ambas as partes pertencem ao mesmo organismo.

Ouroboros alquímico da Chrysopoeia de Cleópatra com a inscrição grega “o um é o todo”.

A frase hen to pan tornou-se uma síntese da visão alquímica da unidade. O mundo seria composto por manifestações diferentes de uma mesma realidade fundamental. Os elementos se separam, entram em conflito, misturam-se e buscam uma nova composição.

A unidade alquímica nunca foi uma superfície sem diferenças. Ela continha tensões: Sol e Lua, masculino e feminino, matéria e espírito, fixo e volátil, enxofre e mercúrio.

O trabalho alquímico procurava criar uma relação entre essas forças.

Em seus laboratórios, os alquimistas aqueciam, dissolviam, separavam, purificavam e recombinavam substâncias. Ao longo dos séculos, essas operações adquiriram um alcance simbólico. A transformação da matéria passou a refletir mudanças ocorridas naquele que conduzia o experimento.

A decomposição de um corpo podia representar a perda de uma identidade. A união de substâncias opostas sugeria a aproximação de aspectos interiores antes incompatíveis. O fogo correspondia à intensidade necessária para romper uma forma endurecida.

A matéria precisava atravessar diferentes estados.

Escurecia, dissolvia-se, perdia seus contornos e começava outra composição. A obra exigia tempo, repetição e paciência. Uma operação era refeita inúmeras vezes, pois a transformação raramente acontecia de maneira imediata.

O Ouroboros expressava esse processo circular. A matéria retornava ao ponto de origem sob uma condição diferente. Cada circulação acrescentava algo ao percurso.

O ouro e a experiência humana

O ouro buscado pelos alquimistas ultrapassava o valor econômico do metal. Ele representava perfeição, incorruptibilidade e realização.

Na linguagem simbólica, o ouro correspondia a uma matéria que havia atravessado seus estados de fragmentação e alcançado uma forma mais estável. Sua pureza nascia do processo.

A vida humana também possui seus laboratórios.

Uma perda, uma doença, o encerramento de uma relação, uma mudança de profissão ou uma crise de sentido podem dissolver a imagem que alguém construiu de si mesmo. Aquilo que antes oferecia segurança perde consistência.

Durante esse período, a pessoa pode sentir que está regredindo. Velhas lembranças retornam. Conflitos que pareciam encerrados reaparecem. Partes esquecidas da história exigem atenção.

A consciência costuma interpretar esse movimento como fracasso. O simbolismo do Ouroboros oferece outra leitura: certos retornos fazem parte do processo de elaboração.

A vida recupera materiais que ainda não encontraram uma forma adequada.

O passado, então, deixa de ocupar somente a região do que passou. Ele se torna matéria ativa. Surge nos sonhos, nas escolhas, nas relações e nos sintomas. Continua buscando um lugar dentro da totalidade da pessoa.

A transformação depende do modo como esse material é recebido.

Uma lembrança pode permanecer como repetição dolorosa. Também pode adquirir um sentido novo quando integrada à história consciente.

A serpente recolhe a cauda. O que parecia resto volta a participar do organismo.

O Ouroboros na Psicologia Analítica

Carl Gustav Jung encontrou na alquimia uma representação histórica dos processos do inconsciente.

Segundo Jung, os alquimistas projetavam na matéria imagens e conflitos de sua própria psique. A transformação realizada no laboratório possuía uma dimensão interior, mesmo quando o alquimista a compreendia como uma operação física.

O recipiente alquímico tornou-se uma imagem da personalidade. Dentro dele, substâncias opostas entravam em contato, reagiam e produziam novas configurações.

O Ouroboros aparece, nesse contexto, como símbolo da autorregulação psíquica. O inconsciente produz imagens, sintomas, fantasias e sonhos que buscam compensar os desequilíbrios da consciência.

A psique trabalha sobre a própria matéria.

Aquilo que foi excluído da vida consciente tende a retornar. Uma emoção reprimida pode reaparecer em um sonho. Um aspecto rejeitado da personalidade pode ser projetado sobre outra pessoa. Um conflito familiar pode se repetir em relações adultas.

O retorno revela a existência de algo ainda sem elaboração.

Jung relacionou o Ouroboros ao processo de individuação, entendido como o desenvolvimento de uma relação mais ampla entre o ego e o Si-mesmo.

No começo da vida, a unidade psíquica existe de forma inconsciente. A criança ainda não possui fronteiras internas plenamente estabelecidas. O mundo, a família e a própria identidade aparecem misturados.

Com o crescimento, o ego começa a se diferenciar. Aprende a escolher, adaptar-se, defender-se e construir uma posição no mundo.

Essa diferenciação possui um preço. Certas partes da personalidade ficam fora da imagem consciente. Desejos, fragilidades, impulsos e possibilidades incompatíveis com a identidade escolhida são afastados.

A individuação conduz a pessoa novamente em direção a esses conteúdos.

O retorno ao inconsciente acontece depois da formação do ego. A unidade recuperada durante esse processo possui outra qualidade. Ela carrega a experiência da separação, do conflito e da consciência.

O início e o fim apresentam uma forma semelhante. Entre eles existe uma vida inteira.

A totalidade e o perigo da dissolução

Erich Neumann, discípulo de Jung, utilizou o Ouroboros para representar o estado primordial da consciência.

Nesse estágio, o ego ainda se encontra contido no inconsciente, como uma pequena possibilidade dentro de uma totalidade indiferenciada. Sujeito e objeto, mundo interno e mundo externo, permanecem pouco separados.

Neumann chamou essa condição de situação urobórica.

O símbolo, portanto, pode aparecer em dois momentos distintos. Ele representa a unidade anterior à formação da consciência e também a totalidade buscada depois de um longo processo de diferenciação.

Essas duas formas de unidade possuem significados diferentes.

A unidade primordial oferece proteção. Ela também impede a autonomia. O indivíduo permanece absorvido pelo grupo, pela família, pela tradição ou pelas forças inconscientes.

A totalidade madura exige a existência de partes diferenciadas. O ego continua presente, embora reconheça que não ocupa o centro absoluto da psique.

Em certos momentos de crise, surge o desejo de abandonar a responsabilidade da consciência. A pessoa procura dissolver-se em uma relação, numa ideologia, numa crença ou num grupo. O sofrimento da separação parece desaparecer.

O Ouroboros pode expressar essa regressão. O círculo se fecha e impede a entrada de qualquer diferença.

A totalidade psíquica possui outra dinâmica. Ela suporta a tensão. Reconhece a existência da sombra, das contradições e dos limites. A unidade surge como relação entre partes distintas.

Quando o retorno se transforma em repetição

Existem círculos que renovam e círculos que aprisionam.

Uma pessoa pode atravessar relacionamentos diferentes e encontrar sempre o mesmo conflito. Pode mudar de cidade, de trabalho ou de ambiente e continuar presa ao mesmo sentimento de fracasso. Os personagens mudam; a estrutura permanece.

A repetição cria uma sensação de destino.

“Tudo sempre termina do mesmo jeito.”

Essa frase costuma esconder um padrão ainda invisível. Algo conduz a pessoa de volta ao mesmo ponto.

A consciência do padrão introduz uma diferença no círculo.

Quando alguém reconhece sua participação em uma repetição, o movimento começa a mudar. Uma reação automática pode ser interrompida. Uma escolha antiga pode ser examinada. Uma projeção pode ser recolhida.

O círculo passa a adquirir a forma de uma espiral.

A pessoa volta a temas conhecidos, agora em outra profundidade. A questão permanece, porém já encontra uma consciência diferente.

Voltamos à casa da infância e vemos espaços que antes pareciam enormes. Relemos um livro e encontramos ideias que haviam passado despercebidas. Recordamos uma perda e percebemos aspectos encobertos pela intensidade da dor.

O lugar continua sendo o mesmo. Aquele que retorna carrega outra experiência.

O tempo circular da vida interior

A modernidade costuma representar a vida como uma linha: nascimento, formação, trabalho, amadurecimento e morte.

A experiência interior segue caminhos menos previsíveis.

Há acontecimentos que somente revelam seu significado muitos anos depois. Há perguntas da juventude que retornam na maturidade. Há sonhos que permanecem incompreensíveis até que a vida alcance a situação que eles anunciavam.

O tempo psíquico se move por camadas.

Uma lembrança antiga pode adquirir força no presente. Uma decisão recente pode reorganizar a compreensão de toda uma história. O fim de uma relação pode alterar a maneira como interpretamos seu começo.

O passado continua vivo porque participa da formação do presente.

O Ouroboros expressa essa continuidade. O que chega ao fim entra novamente no movimento da vida. Retorna como memória, consequência, aprendizado, sintoma ou possibilidade.

Nenhum começo surge inteiramente vazio.

Carregamos histórias familiares, imagens culturais, conflitos herdados e experiências que começaram antes de nossa existência consciente. Entramos em processos que já estavam em andamento.

Também deixamos algo para os ciclos que continuam depois de nós.

A serpente circular permite contemplar essa passagem sem estabelecer uma fronteira rígida entre origem e término. O começo já contém um fim possível. O fim conserva algo capaz de alimentar o começo seguinte.

O fim que retorna ao princípio

O Ouroboros permanece uma das imagens mais profundas da tradição simbólica porque se aproxima de uma experiência difícil de traduzir em conceitos.

Tudo o que vive participa de ciclos.

O corpo nasce, cresce, envelhece e retorna à matéria. As estações se sucedem. Civilizações surgem, alcançam seu auge e desaparecem. Ideias antigas voltam a ser ouvidas em épocas que julgavam tê-las superado.

Dentro da psique, o movimento continua.

Certos conteúdos retornam até encontrarem uma forma consciente. Certas histórias se repetem até que alguém reconheça sua estrutura. Certos fins permanecem abertos porque uma parte de nós ainda vive dentro deles.

A serpente devora a cauda e mantém o círculo.

Seu gesto revela que o término participa da continuidade. Aquilo que foi vivido deixa resíduos, imagens, consequências e sentidos. Tudo isso retorna ao movimento da existência.

O fim encontra o princípio carregando a memória do caminho.

Nesse encontro, a vida recolhe a si mesma.

A boca toca a cauda. O círculo se fecha por um instante. Logo começa outra volta.

Referências

ASSMANN, Jan. Ouroboros: The Ancient Egyptian Myth of the Journey of the Sun. Aegyptiaca: Journal of the History of Reception of Ancient Egypt, n. 4, 2019.

DARNELL, John Coleman. The Enigmatic Netherworld Books of the Solar-Osirian Unity. Friburgo: Academic Press Fribourg, 2004.

JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. Obras Completas, v. IX/2. Petrópolis: Vozes.

JUNG, C. G. Psicologia e Alquimia. Obras Completas, v. XII. Petrópolis: Vozes.

JUNG, C. G. Estudos Alquímicos. Obras Completas, v. XIII. Petrópolis: Vozes.

NEUMANN, Erich. A História da Origem da Consciência. São Paulo: Cultrix.

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Cristóvão Qaldi

Cristóvão Qaldi é tecnólogo em Gestão Pública, licenciado em Filosofia, escritor, pesquisador independente e analista junguiano em formação pelos Institutos Távola e Esfera. Atualmente desenvolve sua prática de atendimento no contexto da formação clínica, com análise pessoal e acompanhamento regular de supervisão.Sua trajetória reúne Psicologia Analítica, Filosofia, simbolismo, mitologia e reflexão sobre os processos de transformação da vida. O contato com a obra de Carl Gustav Jung ofereceu uma linguagem capaz de aproximar razão, símbolo, imaginação e experiência subjetiva.É fundador do projeto Vozes Atemporais, espaço dedicado à filosofia, psicologia, simbolismo, mitologia, cultura e reflexão sobre a experiência humana.

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